A chuva que tem caído com intensidade sobre a zona sul e centro do país traz mais do que apenas o transtorno do trânsito, alagamentos dos bairros ou o desconforto da roupa molhada. Quando as nuvens dão tréguas, levanta-se um inimigo silencioso, invisível e, muitas vezes, fatal.
Nesta reportagem, mergulhamos na realidade dura das inundações urbanas, onde a falta de ordenamento territorial e o deficiente saneamento do meio criam uma “bomba-relógio” para a saúde pública e para a segurança física dos cidadãos.
O “Caldo” Tóxico: O Que Pisamos Quando a Rua Alaga?
Basta uma volta por alguns bairros da Beira, Maputo, Boane, Matola, para perceber o drama. A água que inunda as ruas, invade os quintais e entra nas casas não é apenas água da chuva. É um cocktail bacteriológico perigoso.
Com o transbordo das valas de drenagem — muitas vezes entupidas por garrafas plásticas e lixo doméstico — e a saturação dos solos, as fossas sépticas e as latrinas tradicionais colapsam. O resultado é dantesco: fezes humanas e de animais, lixo em decomposição, óleos e urina de ratos misturam-se numa massa líquida escura e malcheirosa.
É nesta água que as “mamãs” atravessam para ir ao mercado, é nesta água que as crianças, na sua inocência, teimam em brincar, desconhecendo que cada gota carrega milhões de microrganismos letais.
Saúde em Estado de Sítio: As Doenças da Época Chuvosa
O contacto directo com estas águas contaminadas abre a porta a um quadro clínico preocupante:
1. O Flagelo da Cólera e Diarreias Agudas
É o fantasma que regressa ciclicamente. A ingestão acidental desta água ou o consumo de alimentos lavados nela pode desencadear a cólera. O vibrião colérico espalha-se com facilidade neste ambiente, causando desidratação severa em poucas horas. As unidades sanitárias enchem-se de pacientes com disenteria e giardíase, resultado directo do saneamento precário.
2. A Ameaça da Leptospirose
Menos falada, mas igualmente perigosa. Com as tocas inundadas, os ratos saem dos esconderijos e a sua urina mistura-se nas águas da cheia. Quem pisa na água com um pequeno corte ou ferida no pé, permite a entrada da bactéria. Começa como uma gripe forte, mas ataca o fígado e os rins se não for tratada a tempo.
3. Malária e Dengue
A água estagnada, que fica acumulada em pneus velhos, latas e buracos após a chuva, transforma a cidade numa maternidade gigante para mosquitos. O aumento dos casos de malária é inevitável nas semanas seguintes às cheias.
4. O Perigo Rastejante
Não são apenas as pessoas que ficam desalojadas. Cobras, lacraus e escorpiões fogem da água e procuram lugares secos e quentes — muitas vezes, dentro das nossas casas e quintais, escondidos em sapatos ou pilhas de roupa, aumentando o risco de mordeduras venenosas.
Armadilhas Invisíveis: O Perigo dos “Bueiros” e Crateras
Se a doença mata a longo prazo, os buracos matam no imediato. Moçambique enfrenta um problema com as infraestruturas públicas por falta de manutenção adequadas e com a vandalização, nomeadamente o roubo de tampas de saneamento (bueiros) e grelhas metálicas para venda como sucata.
Quando a estrada alaga, a água barrenta nivela tudo. O peão não consegue distinguir onde a via “segura” termina e onde começa o perigo.
- O Bueiro Aberto: Transformam-se em poços da morte. Submersos, são invisíveis. Uma pessoa que caia numa destas caixas de visita pode sofrer fracturas graves ou, no pior cenário, ser sugada pela pressão da água para dentro da tubagem de esgoto, tornando o resgate quase impossível.
- As Valas a Céu Aberto: Em muitos bairros, as valas de drenagem não têm vedação. Com a cheia, a vala confunde-se com a rua. Já registámos, infelizmente, casos de crianças, adultos e viaturas arrastadas pela correnteza destas valas.
- Crateras na Estrada: O asfalto cede, criando buracos profundos que destroem viaturas e causam acidentes graves quando os motoristas tentam adivinhar o caminho por baixo da água.
Guia de Sobrevivência: Recomendações às Famílias
Face a este cenário de calamidade, a prevenção é a única arma. Deixamos aqui o apelo reforçado pelas autoridades:
- Tratar a Água é Obrigatório: Nunca consuma água da torneira ou de poços sem tratamento adequado. Ferva a água.
- Protecção Física: Se tiver de sair de casa e enfrentar ruas alagadas, evite o contacto directo da pele com a água. Use botas de borracha. Se não tiver, sacos plásticos resistentes amarrados aos pés podem ser uma barreira de emergência.
- A “Técnica da Vara”: Ao caminhar numa rua submersa, use um pau ou cabo de vassoura para ir tateando o chão à sua frente. Nunca dê um passo sem confirmar que há solo firme. Desconfie de qualquer redemoinho na água — sinaliza um escoamento perigoso (bueiro aberto).
- Higiene Radical: Lave as mãos com sabão constantemente. Se a água das cheias entrou em casa, desinfecte o chão e paredes com lixívia assim que a água baixar.
- Atenção às Crianças: Não permita, sob circunstância alguma, que as crianças brinquem nas poças de água. É ali que moram as doenças.
Moçambique é um país de gente resiliente, habituada a “tirar a água do capote” e seguir em frente. Mas a saúde não se negoceia. Nestes dias cinzentos, a vigilância deve ser redobrada. Cuidar de si é cuidar da comunidade. Seja prudente.






















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