Depois dos devastadores terremotos que atingiram a Venezuela na última semana, o número de vítimas continua aumentando. Até o momento, já são mais de 2.500 mortos, enquanto as operações de resgate seguem intensas, com equipes tentando localizar sobreviventes sob escombros em diferentes regiões do país.
No centro das discussões sobre a dimensão da tragédia está a chamada “arquitetura chavista”, expressão usada por especialistas para se referir a conjuntos habitacionais erguidos durante os governos de Hugo Chávez (1999–2013) e Nicolás Maduro (2013–2026), que agora levantam questionamentos sobre a qualidade das construções e a fiscalização das obras.
Um dos casos mais emblemáticos é o do conjunto habitacional Urbanismo Hugo Chávez, em Catia La Mar, no estado de La Guaira. O complexo, construído como parte de um programa de habitação social, abrigava moradores que haviam perdido suas casas após uma enchente histórica na região anos antes. Agora, o local foi um dos mais atingidos pelos terremotos, com grande parte das mais de 190 estruturas danificadas ou destruídas.
Uma análise de imagens de satélite feita pelo laboratório AI for Good, da Microsoft, aponta que cerca de um terço das quase 30 mil estruturas de Catia La Mar sofreu algum tipo de dano. Ainda não há uma avaliação definitiva sobre as causas do colapso de cada edifício, mas engenheiros alertam para a necessidade de inspeção urgente nos conjuntos habitacionais que ainda permanecem de pé.
Segundo a emissora alemã Deutsche Welle, especialistas apontam que a fragilidade estrutural de parte das construções públicas, a falta de fiscalização ao longo dos anos e a instabilidade do solo em La Guaira podem ter ampliado os efeitos dos terremotos.
Moradora do edifício “Los Cocos”, um dos blocos que integram o conjunto habitacional Urbanismo Hugo Chávez, Yelsa Rojas disse à Deutsche Welle que “perdeu todo o apartamento”. Ela estava fora de casa no momento dos tremores e acredita que todos os vizinhos do segundo andar tenham morrido.
O programa habitacional iniciado ainda no governo de Hugo Chávez e ampliado por Nicolás Maduro buscou reduzir o déficit de moradias no país com a construção de milhões de unidades. Segundo especialistas, porém, muitos empreendimentos foram erguidos rapidamente por estatais e empreiteiras estrangeiras, com pouca transparência e, em alguns casos, em áreas geologicamente sensíveis.
Na avaliação de profissionais, a centralização das decisões e o enfraquecimento das instituições ao longo dos anos comprometeram os controles de qualidade e a fiscalização das obras. Eles afirmam que a combinação entre solo instável, construções aceleradas e o possível descumprimento de normas técnicas pode ter ampliado a destruição provocada pelos terremotos.
Diante desse cenário, grupos de engenheiros e arquitetos têm se mobilizado de forma voluntária para avaliar os danos nas estruturas e orientar autoridades e moradores sobre os riscos de novos desabamentos.
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