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Surto de Ébola avança em campos de deslocados na RDC sob o peso do corte de fundos internacionais 

Taxa de mortalidade sem precedentes no campo de Kigonze gera pânico; redução de verbas dos EUA para saneamento agrava crise humanitária

A crise sanitária no nordeste da República Democrática do Congo (RDC) atingiu um patamar crítico no campo de desalojados de Kigonze, em Bunia, considerado o epicentro do actual surto de Ébola.  

Desde o início de maio, pelo menos 30 pessoas morreram naquele acampamento, uma taxa de mortalidade descrita como inédita pelas autoridades locais. Os sintomas reportados, que incluem febre alta e vómitos, levantam o forte receio de que o vírus esteja a propagar-se rapidamente e sem controlo entre os mais de 15 mil residentes do campo. 

O drama humano é ilustrado por histórias como a de Kato Lonu, de 47 anos, que enterrou dois filhos em menos de um mês. Embora o progenitor associe as mortes às péssimas condições de higiene e à possibilidade de cólera, a equipa médica e a organização humanitária Caritas sublinham que a resistência inicial dos residentes em permitir a realização de testes diagnósticos tem impedido a confirmação laboratorial das causas de morte.  

Só na última quinta-feira, foi possível recolher as primeiras cinco amostras biológicas de vítimas mortais. O receio das agências internacionais é que o Ébola esteja a circular de forma silenciosa e camuflada na vasta população de 5 milhões de deslocados do leste do país. 

Por conseguinte, quatro das principais organizações não-governamentais a operar no terreno: Mercy Corps, Conselho Dinamarquês para os Refugiados, CARE International e Oxfam, alertam que esta escalada de óbitos é o resultado directo do corte drástico de financiamento internacional para as áreas de água, higiene e saneamento (WASH). 

Os fundos globais destinados a latrinas e estações de lavagem de mãos na RDC caíram para menos de metade entre 2024 e 2025, e o apelo humanitário de 80 milhões de dólares para este ano conta com escassos 21% de cobertura financeira. 

A redução de verbas é fortemente atribuída à nova política da administração norte-americana, liderada pelo Presidente Donald Trump. Washington, histórico e principal financiador dos serviços de saneamento no Congo através da USAID, reduziu ou cancelou vários projectos de apoio aos deslocados.  

A título de exemplo, a Mercy Corps, que em 2024 geria mais de 400 casas de banho públicas e 82 pontos de água para 125 mil pessoas, dispõe agora de verbas apenas para manter seis torneiras e nenhuma retrete pública.  

Em resposta, a administração norte-americana defendeu a reestruturação orçamental, argumentando um redireccionamento para assistência humanitária “altamente prioritária” e reiterando o compromisso de 375 milhões de dólares em fundos directos para o combate ao Ébola, embora os contornos da aplicação destas verbas nos campos fustigados continuem por clarificar. 


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