O número de casos confirmados de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) escalou para 837, contabilizando-se já 196 mortes desde a declaração oficial do surto, a 15 de maio. De acordo com os dados mais recentes partilhados pelo Ministério da Saúde do país, a taxa de letalidade fixa-se nos 23,4%, restando 376 pacientes sob regime de quarentena institucionalizada, enquanto apenas 49 cidadãos conseguiram recuperar da infecção.
Esta nova vaga epidemiológica é provocada pelo vírus Ébola da estirpe Bundibugyo, para a qual não existe actualmente uma vacina ou tratamento laboratorial com eficácia clinicamente comprovada, concentrando-se as zonas de maior contágio nas regiões de Bunia, Mongbwalu e Rwampara, localizadas na província de Ituri. Num relatório técnico publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as autoridades advertem que as operações de contenção médica se tornaram significativamente mais complexas devido à dispersão geográfica do vírus para a província vizinha de Kivu do Norte.
O documento aponta como principais entraves a transmissão contínua em centros urbanos e explorações mineiras, a monitoria deficiente de contactos de risco, a insegurança militar nas frentes de combate e a forte rejeição das equipas de saúde por parte de algumas comunidades locais.
O porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, alertou para a existência de falhas críticas na monitoria epidemiológica, sugerindo a presença de cadeias de transmissão activas e indetectáveis pelas autoridades. Alinhado com esta preocupação, Bruno Michon, gestor de operações da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV), explicou, a partir do epicentro em Bunia, que o surto ainda não atingiu o seu pico e poderá prolongar-se por cerca de um ano.
Michon denunciou que as equipas humanitárias têm sido alvo de insultos, ameaças e agressões físicas durante a realização de enterros seguros, comprometendo o factor de confiança indispensável para travar o contágio.
Perante o agravamento da crise, o Director-Geral do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (África CDC), Jean Kaseya, alertou que este poderá tornar-se no pior surto de sempre caso a expansão regional não seja estancada de imediato.
Para mitigar o desastre humanitário no leste do país, uma região já fustigada por conflitos armados, deslocados internos e infra-estruturas sanitárias débeis, o África CDC e a OMS desenharam um plano financeiro de emergência orçado em 518 milhões de dólares americanos. Contudo, as agências internacionais receberam até ao momento menos de 100 milhões de dólares, com Kaseya a avisar que a factura final poderá ascender a vários milhares de milhões se o apoio financeiro internacional continuar a falhar.
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