Miramar News Desporto Após 20 anos, futebol italiano enfrenta novo escândalo na arbitragem

Após 20 anos, futebol italiano enfrenta novo escândalo na arbitragem

Quase duas décadas depois do ‘Calciopoli’, tem novas polêmicas surgem no país

Gianluca Rocchi é responsável pela escalação de árbitros no futebol italiano Reprodução/Instagram/@comunita_italiana

O futebol italiano volta a ser atingido por um escândalo envolvendo a arbitragem. Gianluca Rocchi, responsável pela designação de árbitros nas Séries A e B, está sendo investigado pela promotoria de Milão por suposta fraude esportiva. O caso levou o dirigente a se afastar voluntariamente e já provoca comparações com o histórico Calciopoli, que abalou o país há 20 anos.

A investigação teve início após uma denúncia do árbitro Domenico Rocca, que demonstrou insatisfação com a gestão da Comissão Nacional de Árbitros (CAN). Em seu depoimento, Rocca relatou episódios de interferência, incluindo um lance da partida entre Udinese e Parma, em março de 2025, quando Rocchi teria batido na janela da cabine do VAR para influenciar uma decisão.

O episódio ocorreu durante o jogo entre Udinese e Parma. Na ocasião, o VAR Daniele Paterna e a assistente Simone Sozza analisavam um possível toque de mão do zagueiro Botond Balogh dentro da área. Após revisão, a equipe de arbitragem entendeu que não houve pênalti, já que o braço do defensor estava junto ao corpo.

Pouco depois, uma batida na janela da cabine teria interrompido a análise. Paterna chegou a se virar e questionar se a jogada seria pênalti. O árbitro da partida, Fabio Maresca, acabou sendo chamado ao monitor e, após revisão, assinalou a penalidade. Florian Thauvin converteu a cobrança e garantiu a vitória da Udinese por 1 a 0. Segundo relatos, a intervenção teria partido de Rocchi.

O áudio da conversa e o registro da batida foram divulgados pelo jornal Il Fatto Quotidiano. Na época, a Federação Italiana de Futebol (FIGC) abriu investigação, mas concluiu que não havia elementos suficientes para punição disciplinar.

Além desse caso, a promotoria de Milão também apura um segundo episódio ocorrido em 2 de abril de 2025, no San Siro, na véspera da semifinal da Copa da Itália entre Inter de Milão e Milan. Rocchi é acusado de manipular a escalação de árbitros para supostamente favorecer a Inter.

De acordo com a investigação, teria sido definido que Daniele Doveri — considerado indesejado pela diretoria nerazzurra — ficaria responsável pelo jogo de volta da semifinal, ficando fora da final ou de outras partidas decisivas. Na mesma ocasião, Andrea Colombo, bem avaliado pela Inter, teria sido escalado para o confronto contra o Bologna. O presidente da Inter, Beppe Marotta, negou qualquer tipo de interferência.

– Ficamos sabendo disso pela imprensa. Ficamos surpresos. Não temos uma lista de árbitros de quem gostamos ou não. De jeito nenhum. Sabemos que agimos com a máxima integridade – disse Marotta à “DAZN” e à “Sky Italia”.

Crise na arbitragem e risco de intervenção

A Associação Italiana de Árbitros (AIA) atravessa um momento de forte instabilidade. O presidente Antonio Zappi foi suspenso por 13 meses, acusado de pressionar árbitros a renunciarem. Com Rocchi e o supervisor do VAR Andrea Gervasoni também afastados, as Séries A e B ficaram sem comando direto na designação de árbitros.

O cenário reacendeu discussões sobre uma possível intervenção do Comitê Olímpico Italiano (CONI), medida já adotada em 2018 após a crise institucional da federação. As eleições para a nova presidência da FIGC estão marcadas para 22 de junho.

Enquanto isso, as investigações seguem em andamento. Rocchi deve prestar depoimento nesta quinta-feira diante dos promotores de Milão. O futebol italiano, que já viveu escândalos como o Totonero e o próprio Calciopoli — este último em 2006, responsável por rebaixamentos de clubes como Juventus e punições a Milan, Lazio e Fiorentina — volta a ter sua credibilidade colocada em xeque.

Após 20 anos, futebol italiano vive outro escândalo de arbitragem

O Calciopoli foi revelado em 2006 e é considerado um dos maiores escândalos de manipulação de resultados do futebol mundial. A investigação apontou que dirigentes da Juventus, Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina pressionavam árbitros e observadores para favorecer seus clubes. A Juventus foi rebaixada à Série B e perdeu dois títulos nacionais. Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina também foram punidas com perda de pontos e multas.

O episódio marcou profundamente o futebol italiano e deixou cicatrizes que ecoam até hoje. A comparação com o caso atual vem justamente do fato de que Rocchi, o chefe de arbitragem, é acusado de manipular designações de árbitros para beneficiar determinados clubes – algo que remete ao espírito do escândalo de duas décadas atrás.


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