Notícias África Uganda mergulha em “apagão” digital nas vésperas de eleições tensas

Uganda mergulha em “apagão” digital nas vésperas de eleições tensas

Yoweri com 81 anos tenta mais a reeleição ao seu sétimo mandato, estendendo o seu governo para 4 décadas de poder

Um silêncio digital desceu sobre o Uganda na passada terça-feira (13). As autoridades de Kampala ordenaram a suspensão total do acesso à Internet em todo o território nacional, uma medida drástica tomada a poucas horas da abertura das urnas para as eleições gerais.

O ambiente é de tensão em Uganda, enquanto o Presidente Yoweri Museveni tenta assegurar o seu sétimo mandato consecutivo, num escrutínio marcado por denúncias de intimidação e restrições às liberdades civis.

A directiva, emanada pela Comissão de Comunicações do Uganda (UCC), foi peremptória: os fornecedores de serviços de Internet e operadoras móveis foram instruídos a cortar o acesso à rede global a partir das 18h00 locais (17h00 em Maputo). Numa carta citada pela agência Reuters, a UCC justifica o “apagão” como uma ferramenta necessária para mitigar a “desinformação, a fraude eleitoral e riscos conexos”, apelando à cooperação das operadoras para “manter a estabilidade nacional” neste período delicado.

Do discurso de 1986 à prática de 2026

No centro da controvérsia está Yoweri Museveni, de 81 anos. No poder desde 1986, após liderar uma guerrilha que derrubou regimes anteriores, Museveni tornou-se um dos chefes de Estado mais longevos do continente africano.

A ironia histórica não passa despercebida aos analistas políticos: quando marchou sobre Kampala há quase 40 anos, Museveni declarou famosamente que o maior problema de África não era o seu povo, mas sim os líderes que se “agarravam ao poder”. Contudo, nas últimas décadas, o líder ugandês alterou a Constituição por duas vezes — removendo os limites de mandatos presidenciais em 2005 e o limite de idade em 2017 — pavimentando a estrada para a sua permanência quase vitalícia no cargo.

Clima de intimidação e censura

O corte da Internet surge na esteira de outras restrições severas. No início deste mês, o Ministério da Informação proibiu a transmissão ao vivo de quaisquer eventos que o governo classifique como “procissões ilegais” ou tumultos, alegando que tais imagens poderiam incitar à violência e semear o pânico.

O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas já manifestou profunda preocupação com a deterioração do ambiente democrático no país. Segundo a ONU, o processo eleitoral decorre sob um manto de intimidação e perseguição a opositores. O cenário agravou-se com a suspensão forçada das actividades de duas importantes organizações locais de direitos humanos, que denunciavam a detenção arbitrária e tortura de jornalistas e apoiantes da oposição.

Com a oposição a contestar frequentemente a transparência dos resultados e as forças de segurança a dispersarem protestos com mão de ferro, o encerramento do espaço digital é visto pelos críticos não como uma medida de segurança, mas como uma tentativa de controlar a narrativa e ocultar eventuais irregularidades numas eleições que poderão estender o governo de Museveni para lá das quatro décadas.

MIRAMAR

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