Qual é o ''mistério das toalhas'' nos jogos de futebol?
Tudo começou longe dos grandes palcos europeus, num jogo do CAN jogado à chuva, entre Nigéria e Moçambique.
Após a histórica qualificação para os oitavos-de-final, Moçambique queria mais. O feito já estava escrito, mas o sonho não se ficava por ali. Pela frente surgia uma das selecções mais poderosas do continente, a Nigéria. Ainda assim, havia esperança.
Acreditava-se que era possível contrariar o favoritismo e dar mais um passo rumo à glória.Chegava, então, a noite da possível realização de um grande sonho. A Miramar transmitia o jogo ao vivo e, nos primeiros minutos, víamos a relva encharcada e a bola traiçoeira. Chovia intensamente.
Foi nesse cenário pesado que os jogadores nigerianos recorreram a um gesto simples: usar uma toalha para humedecer a bola antes das reposições. Nada de novo no futebol moderno. Mas foi ali que nasceu a polémica e, talvez a lenda.
Há quem diga que, a partir daquele momento, os Mambas ficaram atónitos, como se algo invisível tivesse mudado o rumo do jogo. Mexer, Geny, Calila, Wity e outros jogadores quase que não conseguiam correr.Todo jogo feito em modo sufoco no meio campo de Moçambique.
E o que se seguiu foi uma goleada e, com ela, a sensação de que a toalha tinha feito mais do que secar a bola: teria sugado o descerenimento aos Mambas? Exagero? Provavelmente.
O certo é que, nos jogos seguintes da Nigéria, a toalha deixou de ser apenas um acessório. Passou a ser vista como um elemento estranho, quase místico, capaz de emprestar uma força sobrenatural aos seus donos. E quando o futebol começa a cheirar a superstição, o ridículo nunca anda longe.
No CAN, a paranoia atingiu outro nível. No jogo entre Nigéria e Marrocos, as câmaras flagraram um verdadeiro teatro: seguranças e elementos marroquinos a “raptarem” a toalha do guarda-redes nigeriano, numa tentativa quase infantil de quebrar a suposta “botânica”. O guarda-redes corria atrás da toalha como quem protege um amuleto sagrado.
O público ria, mas o recado estava dado: ninguém queria enfrentar a Nigéria com a toalha em campo. E a Nigéria acabou por ser eliminada.O futebol africano, tão rico em técnica e emoção, estava agora também a discutir… pano molhado.
No jogo entre Marrocos e Senegal, a polémica da toalha voltou a ganhar vida. Desta vez na baliza de Édouard Mendy. Debaixo de chuva intensa, o guarda-redes senegalês mantinha toalhas junto ao poste para secar as luvas, mas vários elementos de Marrocos tentaram removê-las durante a partida.
A situação tornou-se tão caricata que o suplente passou boa parte do tempo a vigiar as toalhas, quase como um “guarda da toalha”. Houve empurrões, tentativas de confisco e momentos de tensão à beira-linha.
E quando pensávamos que o assunto morreria ali, a toalha atravessou o Mediterrâneo.Em Portugal, no clássico FC Porto vs Sporting, que terminou empatado a um golo na segunda-feira, o Sporting emitiu um comunicado a denunciar o desaparecimento da toalha do seu guarda-redes.
O que antes parecia folclore africano transformou-se em polémica europeia, com comunicados oficiais e debates televisivos. A toalha, definitivamente, internacionalizou-se.
Entre nós, a palavra “toalha” estava associada a coisas bem diferentes: ao simples acto de secar o corpo… ou, em versões mais domésticas e mediáticas vistas sobretudo no #BalançoGeral, às cenas de fúria na Matola, onde algumas mulheres, ainda de toalha, foram vistas a destruir viaturas dos parceiros. Nunca imaginámos que ela também pudesse decidir jogos de futebol.
No fim, talvez a toalha não tenha poder nenhum. Mas o futebol tem isto: quando faltam explicações, inventam-se símbolos.E assim, um pano banal passou de objecto utilitário a bode expiatório, talismã e arma psicológica.
O que não se pode duvidar é que África é o berço da humanidade. Foi aqui que o mundo começou e é aqui, em África, onde o acto de secar a bola passou a ter outro significado.
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