
Maputo – Moçambique enfrenta uma das crises hidrológicas mais severas da última década. A combinação de chuvas intensas locais e com descargas massivas dos países vizinhos, colocou o Sul e o Centro do país “debaixo de água”. O último balanço oficial aponta para 114 óbitos e um cenário de devastação que já afecta mais de 677 mil pessoas.
O Drama Humano e a Resposta de Emergência
A fúria das águas não poupou vidas. Até ao momento, as autoridades confirmaram 114 mortos, vítimas na sua maioria de afogamentos e descargas atmosféricas. O número de feridos ascende a 99.
No terreno, o cenário é desolador. Cerca de 88.525 pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, encontrando-se agora abrigadas em 72 centros de acomodação activos. As equipas da Unidade de Protecção Civil, apoiadas por parceiros e pelo sector privado, desdobram-se em operações de resgate arriscadas, utilizando helicópteros e embarcações para salvar famílias inteiras que ficaram cercadas pelas águas, especialmente nas províncias de Gaza e Maputo.
“A situação humanitária exige uma mobilização sem precedentes. Há risco muito alto de eclosão de cólera e malária,” alertam as autoridades de saúde, que clamam por ajuda urgente em bens alimentares, kits de higiene e redes mosquiteiras.
Como se não bastasse a força da corrente, as populações enfrentam um perigo adicional: o conflito homem-fauna bravia. Crocodilos, hipopótamos e serpentes, deslocados pelo transbordo dos rios, estão a dispersar-se para zonas habitadas, aumentando o terror entre os sinistrados.
País “Cortado” ao Meio: O Colapso das Infra-estruturas
A espinha dorsal de Moçambique, a Estrada Nacional Número 1 (EN1), está interrompida. O corte na circulação no troço Chicumbane/Xai-Xai e em Incoluane isolou efectivamente a capital, Maputo, do resto do país por via terrestre.
O levantamento de danos nas infra-estruturas é catastrófico:
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Habitação: 4.910 casas totalmente destruídas e mais de 11 mil danificadas. Relatos indicam que milhares de casas de construção precária (adobe) simplesmente “derreteram” com a persistência da chuva.
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Rede Viária: 2.515 km de estradas afectadas e 7 pontes arrastadas pela corrente.
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Serviços Básicos: 318 escolas e 56 unidades sanitárias foram atingidas, comprometendo o ano lectivo e a assistência médica. Além disso, a queda de 193 postes de energia deixou várias regiões às escuras.
O Mapa do Isolamento
A transitabilidade tornou-se o maior desafio logístico.
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Em Maputo: O distrito de Marracuene vê zonas como Macaneta e Machubo completamente isoladas pelo transbordo do Incomáti. Em Boane, o bairro de Bili está inacessível.
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Em Gaza: O distrito de Massingir e o “celeiro” do Chókwè estão sitiados. A norte, Mabalane e Mapai enfrentam escassez de produtos devido ao corte das linhas férreas.
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Em Sofala: As bacias do Búzi e Púnguè forçaram as comunidades rurais a refugiarem-se nas zonas mais altas, com acessos cortados.
Pressão nas Barragens e Rios em Nível Crítico
A gestão hidrológica permanece numa “corrida contra o tempo”. A barragem dos Pequenos Libombos, no rio Umbelúzi, opera perto de 100% da sua capacidade, obrigando a descargas controladas que mantêm Boane em alerta.
A situação é igualmente crítica na Bacia do Limpopo, onde as estações de Chókwè e Sicacate ultrapassaram o nível de alerta devido aos caudais vindos da África do Sul e Botswana. Mais a norte, o Rio Save entrou em alerta máximo nas últimas 48 horas, impulsionado por águas vindas do Zimbabwe, ameaçando agora os distritos de Govuro e Machanga.
As autoridades apelam à retirada imediata das populações nas zonas baixas e ribeirinhas, enquanto o país tenta manter a cabeça fora de água numa das maiores crises climáticas dos últimos anos.
Resumo dos Danos (Janeiro 2026)
| Categoria | Números Actuais |
| Óbitos | 114 |
| Pessoas Afectadas | 677.831 |
| Deslocados | 88.525 (em 72 centros) |
| Casas Destruídas | 4.910 |
| Escolas Atingidas | 318 |
| Estradas Nacionais Destruídas | 152 km (Incluindo corte na EN1) |