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Artigo de opinião: Matavel, afinal, qual é a sua opinião sobre os tractores?

Artigo de opinião: Matavel, afinal, qual é a sua opinião sobre os tractores?
Governo compra 100 tractores com atrelados para transporte de passageiros na zona rural

Esta é a pergunta que me persegue desde semana passada, quando por volta das 13h, no programa Balanço Geral, falei sobre a proposta do executivo para o transporte em zonas de difícil acesso. Desde então, a dúvida tem surgido em conversas, mensagens, chamadas telefónicas e até em olhares curiosos. Tenho, sim, uma opinião formada e sentida.

Não me oponho à compra de tractores. Que isso fique claro! Não contesto o uso destes meios para transportar pessoas e bens em zonas de difícil acesso. Repito: zonas de difícil acesso, como Calanga, Mandimba, Zóbuè, Chueza, Salima ou até mesmo a terra dos meus pais, na Ilha Josina Machel, onde a espera por um transporte de caixa aberta é de longas horas, com o pó ou a lama a colar-se aos pés. A via por lá é crítica, intransitável para viaturas de menor porte, em muitas secções, apesar de tratar-se de uma zona de grande produção de cana-de-açúcar que abastece a indústria açucareira.

Não me oponho a compra de 400 tractores para o escoamento de produtos agrícolas para zonas de comercialização. Pelo contrário, reconheço que, em muitos contextos, eles podem fazer a diferença entre o isolamento e a presença do Estado. O tractor, por si só, não é o problema, nem deve ser diabolizado. O que para mim chama atenção são as causas, o caminho que nos trouxe até aqui e aquilo que o tractor, ainda que silenciosamente revela.

Há momentos em que uma solução urgente nasce da ausência prolongada de soluções duradouras. O tractor aparece, não como simbolo de modernidade, mas como resposta possível onde os projectos estruturantes falharam.

Sempre vivi nas margens do desenvolvimento, por isso, falo com conhecimento de causa. Vivi em Marracuene e conheço a dureza da época chuvosa. Há bairros como Santa Isabel onde a lama paralisa tudo. Vi os “my loves” deslizarem perigosamente, e vi passageiros caírem como se cair fosse parte do percurso. Em dez anos, sem empolar, vi várias placas anunciando obras de manutenção de rotina daquela via. Pelas minhas contas, mais de vinte milhões já foram investidos na terraplanagem. E, no fim, não sobrou muito mais do que a memória do que poderia ter sido feito com seriedade.

Em 2014, fiz a ligação rodoviária entre Mutarara e Angónia. Foram mais de 500 quilómetros atravessando retalhos de estrada, buracos sem fim e longas secções de terra batida. A viagem começou às 20h e só terminou mais de 10 horas depois. Cheguei a Angónia com costelas a doer como se cada solavanco tivesse deixado uma lembrança. Desde então a situação agravou-se. Com a passagem dos mais recentes ciclones, a via tornou-se ainda mais difícil e perigosa. O transporte retraiu-se, movimento de pessoas e mercadorias foi comprometido. O interior, já distante, ficou ainda mais isolado.

Neste contexto, o tractor pode até ser uma resposta razoável. Pode aliviar a dor e facilitar a vida em tempos difíceis, mas também carrega uma pergunta silenciosa: será que já nos habituamos a tão pouco, que possámos aplaudir o mínimo como se fosse milagre? Quando o Estado oferece tractores, não está apenas a oferecer transporte. Está a oferecer o possível, onde o necessário foi adiado.

Também é legítimo levantar dúvidas quanto aos custos. Os valores divulgados para a aquisição destes equipamentos são elevados, e num país com tantas necessidades, cada metical gasto deve ser justificado com clareza.

O debate que não se pode empobrece apenas ao redor dos tractores. Que se debata a necessidade de planear a longo prazo, de ligar comunidades com estruturas permanentes, de fazer do interior do país uma prioridade e não um apêndice de última hora.

Os tractores poderão, sim, ser uma ajuda imediata. Em determinados lugares deste país podem significar a diferença entre o isolamento total e alguma mobilidade. Mas que não se tornem o limite da nossa ambição colectiva. Que não sejam tratados como solução definitiva para um problema estrutural. O povo merece mais do que respostas improvisadas. Merece estradas que durem mais do que um ciclo político, pontes que resistam à primeira cheia, e políticas públicas que olhem para o futuro com seriedade.

Pode ser justo começar com tractores onde tudo falta, mas é inaceitável terminar por aí. Precisamos de uma estratégia de desenvolvimento que não normalize o provisório, que não celebre a precariedade como se fosse desenvolvimento.

Daqui a alguns anos a nossa meta não pode ser continuar a distribuir tractores, tem de ser transformar esses tractores em símbolos de uma etapa vencida, substituídos por estradas asfaltadas ou pavimentadas, com transporte regular, digno e seguro.

Precisamos de comboios, BRTS e todo sistema de transporte que ande acima de 10 a 20km, como estes “amarelinhos” porque um país que se habitua a andar devagar, cedo pode convencer-se que correr é um luxo.

Jorge Matavel 

 


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