Num agravamento sem precedentes das relações diplomáticas entre o Ocidente e a região do Sahel, as juntas militares do Mali e do Burkina Faso anunciaram a proibição imediata da entrada de cidadãos dos Estados Unidos da América (EUA) nos seus territórios.
A medida surge como uma resposta de “reciprocidade” à decisão da administração norte-americana de incluir estes países africanos na sua “lista negra” de viagens.
O Que Aconteceu
A crise diplomática escalou na viragem do ano. No dia 16 de Dezembro de 2025, a administração dos EUA (sob a presidência de Donald Trump) anunciou que, a partir de 1 de Janeiro de 2026, cidadãos de vários países, incluindo os membros da Aliança dos Estados do Sahel (AES) — Mali, Burkina Faso e Níger —, estariam barrados de entrar em solo americano. Washington justificou a medida alegando preocupações com a segurança nacional e a falta de cooperação destes governos na partilha de informações sobre terrorismo e identidade.
A resposta de Bamako e Ouagadougou não tardou. Em comunicados oficiais emitidos entre 30 e 31 de Dezembro, os Ministérios dos Negócios Estrangeiros do Mali e do Burkina Faso classificaram a decisão americana como “hostil” e, invocando o princípio diplomático da reciprocidade, declararam persona non grata os visitantes com passaporte americano.
Embora o Níger faça parte da mesma aliança e tenha sido igualmente visado pelas restrições dos EUA, os comunicados mais contundentes sobre o bloqueio de entrada citados pela imprensa internacional focam-se, até ao momento, nas directivas do Mali e do Burkina Faso.
Os Impactos desta “Guerra Diplomática”
Para o continente africano, este distanciamento sinaliza uma reconfiguração profunda da geopolítica regional. Eis os principais impactos esperados:
1. O Fim da Influência Ocidental no Sahel
- Esta medida é o “prego final no caixão” da presença ocidental na região. Após a expulsão das tropas francesas e o encerramento das bases de drones americanas no Níger (iniciado ainda em 2024/2025), o bloqueio de civis e diplomatas americanos isola definitivamente estes países da esfera de influência da NATO.
2. Aproximação a Novos Parceiros (Rússia e China)
- O vácuo deixado pelos EUA não ficará vazio. É previsível que a Aliança dos Estados do Sahel reforce ainda mais a sua cooperação militar e económica com a Rússia (através de grupos paramilitares e acordos de defesa) e com a China (para infra-estruturas). Para os EUA, isto significa perder “olhos e ouvidos” numa zona crítica para o combate ao jihadismo global.
3. Risco de Isolamento Humanitário
- Uma das maiores preocupações é o impacto nas agências de ajuda. Muitos programas da ONU e ONGs internacionais operam com financiamento ou pessoal americano. A proibição de entrada pode paralisar projectos vitais de saúde e alimentação numa região já fustigada pela seca e pela insegurança.
4. Efeito Dominó na CEDEAO
- A ruptura total com Washington fortalece a narrativa da AES de que a soberania nacional está acima de tudo, desafiando a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que tem tentado, sem sucesso, negociar o regresso destes países à ordem constitucional democrática.
