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De Malabo a Djibloho: A Polémica Mudança da Capital da Guiné Equatorial entre o Desenvolvimento e o Medo do Vulcão

MAPUTO – A Guiné Equatorial, país irmão da CPLP, encontra-se num processo de transformação profunda e controversa. A nação está a transferir o seu centro de poder político da histórica ilha de Bioko, onde se situa Malabo, para as profundezas da selva continental, na recém-construída cidade de Djibloho, agora baptizada como Ciudad de la Paz (Cidade da Paz).

O que para o Governo de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo é um passo estratégico rumo à modernização, para os críticos não passa de um investimento faraónico que ignora as necessidades básicas da população. Mas, nos corredores de Malabo, correm rumores de que a mudança não é apenas administrativa, mas sim uma fuga estratégica face às vulnerabilidades geográficas da ilha, incluindo a ameaça adormecida do vulcão Pico Basilé.

O Adeus à Ilha

Historicamente, a capital Malabo serviu como porto seguro e centro colonial. No entanto, a localização insular apresenta desafios logísticos e de segurança. A nova capital, Ciudad de la Paz, situa-se no coração da região continental de Rio Muni. Desenhada para albergar cerca de 200 mil habitantes, a cidade ostenta avenidas largas, edifícios governamentais futuristas e hotéis de luxo, erguidos onde antes existia apenas floresta densa.

Os Argumentos a Favor: Centralidade e Segurança

Para o executivo equato-guineense, a mudança sustenta-se em pilares pragmáticos:

 * Descongestionamento de Malabo: A actual capital sofre com o crescimento desordenado e a pressão sobre as infra-estruturas antigas.

 * Segurança Nacional: Uma capital no continente é, teoricamente, mais fácil de proteger contra invasões marítimas ou tentativas de golpe de Estado, garantindo maior controlo sobre o território vasto do Rio Muni.

 * Desenvolvimento do Interior: Levar a capital para o centro do país visa impulsionar a economia nas províncias do interior, historicamente negligenciadas em favor do litoral.

 * Protecção Climática: A nova localização oferece um clima mais ameno e está mais protegida das tempestades tropicais que fustigam a costa.

O Outro Lado da Moeda: Custos e Isolamento

Apesar da opulência do projecto, vozes da oposição e observadores internacionais apontam falhas graves:

 * Despesismo Público: Com o país a enfrentar crises económicas devido à flutuação do preço do petróleo, gastar milhares de milhões de dólares numa nova cidade é visto como uma afronta, enquanto os sectores da saúde e educação carecem de fundos.

 * Risco de “Elefante Branco”: Teme-se que Djibloho se torne uma cidade fantasma, acessível apenas à elite política e administrativa, deixando o povo comum à margem.

 * Impacto Ambiental: A desflorestação massiva para erguer a cidade de betão no meio da selva tem levantado preocupações ecológicas sérias.

O Factor Medo: O Vulcão e os Rumores de Fuga

Para além da política e da economia, um factor inquietante impulsiona esta mudança: a geografia vulcânica de Bioko.

A ilha de Bioko é, essencialmente, formada por vulcões. A actual capital, Malabo, repousa na encosta do Pico Basilé, um vulcão activo (embora adormecido há décadas) que se ergue a mais de 3.000 metros de altitude.

Circulam em Malabo especulações de que a mudança da capital foi acelerada pelo receio de uma catástrofe natural. Geólogos alertam que uma eventual erupção do Pico Basilé poderia não só destruir parte da cidade, como isolar completamente o Governo na ilha, cortando rotas de fuga aéreas e marítimas.

Adicionalmente, existe o argumento estratégico-militar: estar numa ilha torna o Governo vulnerável a um bloqueio naval. Ao mover-se para o interior do continente, o Presidente Obiang procura um reduto fortificado, longe das lavas do vulcão e das ameaças que possam vir do mar, garantindo a sobrevivência do regime em qualquer cenário de crise extrema.

Enquanto os arranha-céus sobem na selva, a população aguarda para ver se a Ciudad de la Paz trará a prosperidade prometida ou se servirá apenas como um bunker de luxo para a elite dirigente, longe dos perigos da ilha.

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