
A emergência sanitária na Venezuela, provocada pelos terremotos de quarta-feira (24), atinge um sistema de saúde que já enfrenta uma longa crise, resultado de anos de deterioração e falta de investimento — um cenário que não mudou de forma significativa nos últimos meses, apesar das mudanças no governo e da ajuda enviada pelos Estados Unidos, e que volta a ser testado por mais um desastre natural.
As primeiras imagens mostram hospitais superlotados, com salas improvisadas em corredores e até nas ruas devido ao alto número de feridos, que ainda está em dados preliminares.
“O sistema vem sofrendo um deterioramento importante há muitos anos. Uma situação como essa o encontra longe das melhores condições. De modo geral, o quadro é preocupante”, disse à CNN o especialista em políticas públicas de saúde Marino González, membro da Academia Nacional de Medicina da Venezuela.
O Ministério da Saúde informou que ativou a rede de oito hospitais públicos na Grande Caracas (que abrange a maioria das áreas afetadas), além de 12 clínicas privadas voltadas para triagem, estabilização e internação após os terremotos.
“O fator crítico é a gestão de recursos. Já existe uma coordenação entre recursos públicos e privados — essa é uma boa notícia”, comentou González.
A resposta passa pela administração dos poucos recursos disponíveis. O último relatório da Pesquisa Nacional de Hospitais, uma iniciativa da organização Médicos pela Saúde, que monitora o sistema há mais de uma década, apontou em 2024 um déficit de cerca de 60% na capacidade cirúrgica, com uma média de quatro salas de cirurgia operacionais por hospital, quando a capacidade estrutural é de cerca de dez.
Além disso, revelou que, em 91% dos centros monitorados, os pacientes precisam levar uma lista de insumos para poder ser admitidos em salas de cirurgia, enquanto o índice de desabastecimento de insumos de emergência era de 36%.
O cenário é ainda mais complicado fora da capital, onde estão os serviços de maior complexidade.
No estado de La Guaira, apesar de ficar a poucos quilômetros ao norte de Caracas, a situação é diferente. “Embora esteja perto, há limitações pela topografia da região, e os serviços ali não têm a mesma complexidade. Pessoas que precisam de atendimento mais especializado devem ser transferidas para Caracas, o que representa um desafio logístico”, explicou González.
Essa necessidade de deslocamento também envolve profissionais de saúde, que podem ser realocados para as áreas com maior demanda. No entanto, além da falta de insumos, há redução do quadro humano, já que muitos profissionais deixaram o país como parte do êxodo da última década.
Em 2025, a Venezuela destinou 3,5% do orçamento à saúde, segundo dados da Transparência — bem abaixo da média mundial de cerca de 10% e também inferior ao mínimo de 6% recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Um relatório da CNN publicado no fim de maio mostrou a dura realidade enfrentada por muitos pacientes, especialmente na área oncológica, devido à falta de recursos, tratamentos e medicamentos acessíveis. A CNN procurou o Ministério da Saúde para comentar as condições hospitalares, mas não obteve resposta.
A presidente interina, Delcy Rodríguez, distribuiu insumos médicos a centros de saúde no início de maio e reconheceu que o sistema está “abalado”, atribuindo isso às sanções internacionais, e prometeu “priorizar o atendimento imediato e gratuito”. Embora as sanções afetem a economia do país, elas vigorem há cerca de uma década, enquanto a deterioração do sistema de saúde é ainda mais antiga.
González, professor da Universidade Simón Bolívar, explicou que, em casos de terremoto, a atenção se concentra em pacientes com diferentes tipos de trauma: “A principal demanda são unidades especializadas em politraumatizados. Os centros precisam ter essas estruturas, que exigem equipamentos, tecnologia e profissionais especializados, como traumatologistas e intensivistas”.
“Em poucas horas, é preciso ter um diagnóstico rápido do que é necessário, quem pode fornecer e em quanto tempo”, enfatizou. Essa tarefa não cabe apenas ao setor de saúde, mas também exige coordenação com a defesa civil, bombeiros, forças de segurança e até escolas, algumas já adaptadas como abrigos e centros de apoio.
“É necessário agir imediatamente: ter capacidade de gerir o choque”, disse González. “Infelizmente, em termos de gestão de desastres, a Venezuela é um país de alto risco. As dificuldades de coordenação nos últimos anos foram significativas. Somadas às restrições de investimento público, tornam o cenário ainda mais preocupante.”
Dezenas de governos já ofereceram ajuda ao país, tanto em operações de busca e resgate quanto em assistência humanitária.
“A dimensão dos danos é impressionante”, declarou à CNN Loyce Pace, diretora regional da Cruz Vermelha para as Américas. Até o escritório da organização foi danificado pelo terremoto, e a equipe precisou se deslocar.
“Na verdade, a Cruz Vermelha da Venezuela já estava respondendo a essa crise prolongada. Por isso, estávamos preparados — assim como eles — e já havíamos pré-posicionado diversos suprimentos, desde kits de higiene até equipamentos médicos”, acrescentou.
Diferentemente de uma pandemia, que evolui de forma gradual, um desastre natural raramente permite tempo de preparação e resposta, além das medidas preventivas. “Mesmo em países desenvolvidos, nesses casos, o apoio internacional é totalmente justificado”, afirmou González.
A presidente interina também anunciou a criação de um fundo inicial de 200 milhões de dólares com recursos disponíveis do Fundo Monetário Internacional para a reconstrução, além da criação de outro fundo voltado ao “atendimento imediato às vítimas”.
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