O Director-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, desembarcou na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo (RDC), considerada o epicentro do actual surto do vírus do Ébola. A visita de alto nível ocorre num momento crítico em que a propagação da doença ameaça superar a capacidade de resposta das equipas humanitárias no terreno.
Em conferência de imprensa realizada após reunir-se com a Primeira-Ministra congolesa, Judith Suminwa Tuluka, o chefe da OMS reconheceu a complexidade da crise, mas manifestou confiança na capacidade do país de reverter o cenário, lembrando o histórico da RDC no controlo de epidemias anteriores.
Apesar do tom optimista da liderança da OMS, a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) emitiu um aviso contundente, alertando que a intervenção médica não está a acompanhar a velocidade de contágio de um dos surtos mais rápidos de que há registo. De acordo com o director-adjunto de operações da MSF, Dr. Alan Gonzalez, nunca antes se registaram tantas infecções num período tão curto após a declaração oficial de um surto.
A organização humanitária sublinhou que a verdadeira escala e severidade da crise permanecem desconhecidas, exigindo uma expansão imediata dos testes de diagnóstico, um destacamento célere de profissionais de saúde e a garantia de corredores logísticos para o fornecimento contínuo de material médico.
A resposta sanitária enfrenta ainda sérios entraves de segurança e resistência social nas cidades de Ituri. O clima de tensão intensificou-se devido à revolta dos residentes locais contra os rigorosos protocolos médicos impostos para a gestão e enterro dos corpos das vítimas, que colidem directamente com as tradições e rituais fúnebres da região. Esta vaga de contestação já resultou em pelo menos três ataques directos contra centros de saúde.
Adicionalmente, as operações de socorro nos hospitais de Rwampara e Geral de Bunia são severamente fustigadas pela actividade militar de grupos rebeldes, como as Forças Democráticas Aliadas (ADF), ligadas ao Estado Islâmico, e outras milícias étnicas que operam na província.
A crise humanitária já extravasou as fronteiras de Ituri, registando-se casos activos nas províncias do Kivu Norte e Kivu Sul, incluindo cidades estratégicas como Goma e Bukavu, que se encontram sob o controlo do grupo rebelde M23, apoiado pelo Ruanda.
Perante o alastramento da doença, o Uganda e o Ruanda optaram pelo encerramento total das suas fronteiras terrestres, enquanto a administração norte-americana proibiu a entrada nos Estados Unidos de cidadãos não portadores de passaporte americano que tenham visitado recentemente a RDC, o Uganda ou o Sudão do Sul.
Tedros Adhanom condenou publicamente estas restrições internacionais, classificando-as como ineficazes e contraproducentes, argumentando que o bloqueio de fronteiras desencoraja a transparência de estados que, como a RDC, estão a reportar a situação epidemiológica de forma aberta.
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